Tema: Os desafios impostos ao Brasil pelo "novo normal"
A partir da leitura dos textos motivadores e com base nos conhecimentos construídos ao longo de sua formação, redija texto dissertativo-argumentativo em modalidade escrita formal da língua portuguesa sobre o tema "Os desafios impostos ao Brasil pelo 'novo normal'", apresentando proposta de intervenção que respeite os direitos humanos. Selecione, organize e relacione, de forma coerente e coesa, argumentos e fatos para defesa de seu ponto de vista.
Texto I
O que é o novo normal?
O conceito de novo normal, na verdade, não é inédito nem surgiu por causa da Covid-19. Em 2009, ele já era abordado por observadores do mercado econômico, como a McKinsey, referindo-se à adaptação dos Estados Unidos ao pós-crise de 2008.
A definição de novo normal está associada a uma mudança drástica da sociedade. Mais precisamente, a uma transformação substancial no modo de fazer as coisas, e não a uma retomada imediata ao status anterior. E o novo coronavírus mudou muito em nosso estilo de vida, portanto é compreensível que se pergunte: como viveremos daqui para a frente?
A resposta é esse "novo normal", à primeira vista tão vago quanto contraditório.
Veja, por exemplo, as notícias da reabertura do comércio em alguns países. Na China, uma loja da marca de luxo Hermès vendeu 2,7 milhões de dólares em um dia. Na França, clientes fizeram fila na frente de um estabelecimento da Zara.
Diante desses casos, pode ser tentador anular o impacto do novo coronavírus e afirmar que voltaremos a estado de antes tão logo o possamos. Isso pode ser verdade para parte do público consumidor, mas não para sua totalidade.
Os chineses ainda não retomaram o movimento pré-quarentena, como vimos no caso das concessionárias de veículos, que registraram 66% da circulação habitual após a reabertura. O exemplo da Zara também foi atípico para os franceses, que não presenciaram um fluxo de consumidores tão grande no geral.
A realidade é mais complexa do que esses casos isolados. Além disso, precisamos analisar as diferentes etapas do novo normal com relação à pandemia de Covid-19.
Texto II
Brincar de home office não vai alterar ordem desigual em que vivemos
Segundo o historiador Walter Scheidel, pandemia só alteraria desigualdade social se matasse milhões
Uma expressão que me causa especial desgosto é "o novo normal". Não porque não ocorram mudanças decorrentes de epidemias, maiores ou menores, mas porque no mundo de hoje, no qual o marketing é a ciência fundamental, tudo fica ridículo quando a intenção primeira é a venda de uma visão de mundo açucarada para deixar as pessoas ainda mais infantilizadas do que já estão.
Hoje vou indicar um dos antídotos que temos à mão: um livro. O autor, o historiador Walter Scheidel tem uma hipótese muito consistente, chamada de "os quatro cavaleiros da igualdade social", contra o montante de bobagens que anda circulando por aí, confundindo, como de costume, pensamento público com marketing de ideias.
Ele foi recentemente entrevistado nesta Folha, por ocasião do lançamento, no Brasil, do seu "The Great Leveler", lançado pela Princeton University Press em 2018 e que aqui ganhou o título de "Violência e a História da Desigualdade - Da Idade da Pedra ao Século 21".
Segundo o autor, a normalidade social por longos períodos sempre tende a acumular riqueza nas mãos dos mais ricos e a aumentar a desigualdade social. Só grandes devastações em larguíssima escala alteram a desigualdade -e, mesmo assim, após a normalização que se segue, a desigualdade retoma seu curso.
Para quem não lembra o que é desigualdade social ou pobreza em larga escala (sei da diferença conceitual entre as duas, mas não vou dar atenção a isso por aqui porque não é necessário), eu lembro: desigualdade social é o que faz com que políticas sanitárias na América Latina conhecidas como "lockdown" sejam, basicamente, cercar bairros periféricos ou favelas com alto índice de transmissão da Covid-19 e impedir que seus moradores circulem pela cidade, fazendo com que, assim, não contaminem o resto da população, inclusive parte da inteligência pública alienada.
Sei que belas almas entendem esse processo de maneira diferente, pois sempre confundem o Brasil com a Dinamarca, mas nada temos a fazer em relação a isso. Aliás, no mínimo dois países na América Latina puseram esse tipo de política em prática, cercando seus bairros pobres.
Voltemos aos quatro cavaleiros da igualdade social. Segundo Scheidel, a desigualdade caminha passo a passo com a normalidade social. Os fatores dessa desigualdade surgiram já desde o neolítico e se acentuaram com o tempo.
A sorte biológica (que se materializa em mais saúde e em boa hereditariedade tanto em relação à sua origem quanto em relação à sua descendência), as leis que normatizam a transmissão de riquezas materiais e imateriais (fator essencial para a tal segurança jurídica e comercial), as vantagens geográficas, a capacidade técnica de colher, cuidar e assegurar a riqueza acumulada, os governos e as religiões (instituições que trazem exatamente essa segurança), tudo isso são elementos da normalidade social e histórica.
A interrupção desse curso normal das coisas, contudo, só ocorre quando quatro fenômenos acontecem.
O primeiro são as guerras profundas, capilarizadas, amplas, industrializadas, duradouras -caso das duas guerras mundiais, das guerras napoleônicas e da guerra civil americana, por exemplo. São conflitos com capacidade de matar pessoas em um nível gigantesco e de destruir a estrutura social, política e econômica existente.
O segundo fator são as revoluções, como a soviética e a chinesa, que mataram pessoas aos milhões e geraram uma guerra civil de capacidade devastadora.
O terceiro, a falência absoluta do Estado em uma determinada sociedade, levando ao caos social, político e econômico e debilitando a sociedade ao ponto de quase extinção.
O quarto? Pandemias. Porém, não esta pela qual estamos passando, que, até onde vemos, não terá nenhum efeito devastador se comparada a outras tantas. Trocando em miúdos, uma epidemia só consegue mudar alguma coisa de fato se matar milhões e milhões de pessoas, destruindo a sociedade de forma a ela não conseguir ser retomada do ponto em que se encontrava.
Sim, apenas a destruição em massa de populações inteiras, instituições, redes de circulação de produtos e infraestrutura produtiva pode alterar a desigualdade social -e, mesmo assim, após a normalidade retomada a duras penas, a desigualdade tende a voltar.
Portanto, você e seu narcisismo brincando de home office não vão alterar nada na ordem desigual em que vivemos. Aliás, pelo contrário: deve piorar.
Luiz Felipe Pondé - Escritor e ensaísta, autor de "Dez Mandamentos" e "Marketing Existencial". É doutor em filosofia pela USP.
Texto III